13ª carta à minha Mãe

13ª carta à minha Mãe

lá fora chove
como se pingos de chuva chorassem por nós
como se o tempo viesse em minha defesa
e me trouxesse anjos e recados
rascunhos e projectos inovadores
que me afagam e embalam
enquanto beijo nos olhos a chuva
por uma nostálgica janela

como quem provoca quem quero esquecer
te peço ajuda
para sair desta dormência
e acordar
como a alvorada e o padeiro que se levantam cedo

o algoritmo da vida
tem-me baralhado todos os dias
e eu tenho deixado
como quem vive agarrado a medalhas de prata
como quem não sabe por onde abrir caminho
como quem se fecha num quarto escuro para chorar
inocente
como quando nasci

o problema minha riqueza
é que tenho muitas saudades tuas
como se tivesse o abraço sempre preparado
como se apertos no peito fossem rituais nocturnos

de coração arrancado
como se tiram os caroços das cerejas
sucos escorrem-me diariamente pelos dedos
são o sangue dos olhos transformado em lágrimas
são lágrimas de ferro fundido
muito resistentes a rupturas portanto
como tu e eu

da vida já perdi partes
mas as piores
foram contigo às costas
queria largar essa mochila
há anos que me pesa
há anos que tento abrir o céu à força com as mãos
que até os ossos me ficam a descoberto
se a carne e o ferro se gastam com o tempo
porque não se gasta a ausência?

tenho andado
como quem só canta se não tiver plateia
numa espécie de gabinete de guerra interno
embrenhado num esquecimento desacomodado
como quem quer muito mas não quer de facto
esquecer-te
no entanto impotente
como se lavasse camisas no programa errado
e prostrado
como as palavras que detestam o silêncio
e as cortinas que ondulam à janela sem saber o que fazer

de olhos turvos de saudade
tenho acessos de uma quase raiva
como se a violência fosse uma coisa normal
oh senhores
parece que está tudo gasto menos tu
e é por isso
ao menos por um dia
que te queria esquecer
como um vestido que se tira pela cabeça
como quem acorda de um sono sem sonhos
como quem já nem a voz da sua mãe conhece

queria seguir em frente
como quem não vê o céu de sempre
como quem volta a sentir o cheiro da vida
queria deixar de me lembrar que te perdi
como quem nunca te conheceu
ao menos por um dia

ajuda-me com este circo
porque preciso de ser quem era
preciso de uma primavera só para mim
como todas as outras andorinhas
como quem desembrulha um nó cego
sem que sobre ele se possa algum dia
construir alguma coisa

que eu consiga renascer
e sorrir ao menos por um dia
como quem alcança a alta posição da martírio
portanto meu grande amor
meu amor eterno
de cabeças ainda de fora mas quase afogados
não façamos mais ondas

e por fim
devagarinho
lentamente
como um rio que empurra barcos sonolentos para o mar
te mando um décimo terceiro beijo
amo-te muito Mãe
até pró ano

dedicado

à minha mãe