Vela de aço não de parafina!

Vela de aço não de parafina!

Incrédulo
como quem entorna um vinho caro
enxergo ao longe uma silhueta!
é bela e preta!
até o ar trava a sua chegada!
que caminhar ela tem!
pensava que era outro alguém
mas eras tu
brilhante como a luz do sol
que veste pela janela
uma casa inteira!

Começou assim
uma aragem com algo inconcebível
que me fez levantar a cabeça!
e por onde quer que passes
todos os cantos da rua
tagarelam que és a mais bela!

Permaneces doce e preservada
como legumes no vinagre!
ah esse perfume
do caminhar cinético dos teus sapatos
que dum silêncio de algodão
se fazem passos de dança!

Fico entusiasmado
como a cerveja fica à tona do copo
e chamo-te
como se chamasse o sol para mais perto!

Um delírio abriu meu pensamento
por ti que gemes o meu nome
e tocas-me
como se fosses oleira de profissão!
ah essa tua maneira clandestina de beijar!
e beijas-me
e do nada
dás-me com a tua boca oval e encarnada
uma nota de advertência dizendo
‘molesta-me Serafim
meu cavalinho de tração!'
executo ligeiro o teu pedido
profanando-te o corpo
com uma vara que atrai
uma bezerra faminta
que chama pelo leite vulcânico do pai.

Ó Deus
que nos puseste um fado no colo
recozido e repassado
como um anzol que causa dependência!
não temos mais tempo a perder
porque ele
o tempo
não é como o vosso
eterno!

Recolho depois
toros de lenha cascas de pau
pra incendiar mais ainda
o mecanismo de esfregar e transpirar
a que chamamos fogueira!

Temos pressa
e a cavalo nela vamos em fuga
percorrendo mais fronteiras que o vento
e no ápice
em que um fósforo entra em combustão
dou à luz o meu punhal
antes sequer de alguém se despir!

que embaraço!

No entanto em linha reta
línguas em êxtase aprendem nós de marinheiro
enquanto nós crianças
namoriscamos
como ladrões que acariciam o que não é deles!

Já em alto comprimento
despimo-nos sem preâmbulos ou perguntas
e teus seios pontiagudos
atrevidos como melões novos
e lindos como potros
olham para cima!
quero pô-los ‘de gatas’ com a língua!

Subjugo-te a nuca como a um boi
e teus lábios abraçam o meu instrumento
para que eu receba
a sensação de uma porta bem trancada!

Calor temos depois o mais quente
um matar-morrer adolescente
e no espelho um pânico vermelho
que diz
‘afastem-se que o osso é meu!’

Tenho agora três pernas
a do meio
uma vela de aço não de parafina!
ela cura é feiticeira é medicina
e chama-se Serafim!
ah benditas colisões! sim!
benditos cozinhados que fazemos
é com ervas doces que nos comemos!
um carrega o outro adiciona força!
parece que temos pólvora debaixo dos umbigos!

Com os nossos bicos alongados
e virilhas em ângulos ofensivos
batemo-nos cada vez mais!
‘bate-me meu amor mais e mais!’
um monte pélvico
e um osso que não se pode torcer
fazem peso na cama em ruínas
enquanto a gata na outra ponta
baloiça e procura adormecer

A cama
que até cascalho lavado servia
tudo nela se fazia
como coitos paralelos e deslizantes
que nos puxam como as marés!
e lá vamos nós
sequiosos e beligerantes
como quem come e bebe sem pagar
fornicar de todas as maneiras
ora com porrada e asneiras
ou sofisticados e esquisitos
como um fidalgo
‘que bem tu montas
e tão bem eu cavalgo!’

Com duas cores assim te como
encarnado bruto e sereno amarelo
e d’alternados jeitos eu te tomo
devagarinho ou então martelo!

Sou um beija-flor que enfia
com meu bico alongado
tudo até às bordas da ousadia
da tua flor com o meu arado
que come e bebe e também pia
com um piar apaixonado!

Tão miúdo é o mar
diante do que tenho para verter!
que nome dar a testículos que não morrem?

Eu quase clemente
e tu moída por trás e pela frente
enquanto me venho e tu já vencida
somos navio que flutua
sobre a massa das águas!
e nós
que nos comemos até à côdea
apenas deixamos aos pardais
sementes cheias de nada.

Ó vulva suada
tão achatada pela guerra
coitada dela
daquela desgraçada
e coitado de mim
que digo ‘coitada dela’
pois comi-a como chupo tangerinas!
lavar descascar lamber e depois comer!
não te ergas mais da cova senhora!
deixa-te estar aí morrida!
malvada, que não te cansas!
e é por causa dela
que arremesso versos como lanças!

De pénis amolecido como um figo em calda
digo que és linda até à aflição mulher!
e é por esta razão
que sou teu prisioneiro.

Já esgotados
tu ferida eu com os maiores hematomas
recolhemo-nos assim
ao trivial estatuto
de comer dormir fornicar e voltar a fazer
no dia seguinte
tudo de novo!

dedicado ao:

Serafim